II Conferência Internacional em Pesquisa e Desenvolvimento de Livros Didáticos de Matemática

Visão geral

 

De 7 a 11 de maio de 2017, ocorreu no Rio de Janeiro a II Conferência Internacional em Pesquisa e Desenvolvimento de Livros Didáticos de Matemática (ICMT2) organizada pelas universidades UFRJ, Unirio, Unesp e UFPE, com o apoio da Sociedade Brasileira de Educação Matemática (SBEM), da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) e da Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC). Participaram da conferência cerca de 170 professores e pesquisadores de mais de 40 países, sendo a maioria deles estrangeiros e pesquisadores que estavam ali apresentando seus trabalhos.

UFRJ, maio de 2017.

Na abertura do evento, Ubiratan D’Ambrosio, professor emérito da Unicamp, fez uma homenagem ao recém-falecido Elon Lages Lima, enfatizando sua importância como matemático e como crítico e elaborador de livros didáticos. Na sequência, João Bosco Pitombeira, professor emérito da PUC-Rio, transcorreu sobre o tema Mathematics textbooks for million – Brazil’s mathematics textbooks assessment program: apresentou alguns números e o histórico do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) e enfatizou a importância e influência do programa na qualidade, no conteúdo e no formato dos livros didáticos no Brasil.

Nos quatro dias seguintes, participei de sessões plenárias, comunicações orais, apresentações de pôsteres, workshops e simpósios da ICMT2. Nessas atividades, foram discutidos principalmente os seguintes temas:

  1. Livro didático (conceitos, problemas, métodos, direções etc.).
  2. Análise de livros didáticos (características, tratamento de conteúdo e/ou pedagógico etc.).
  3. Análise histórica de livros didáticos.
  4. Uso do livro didático por professores e estudantes.
  5. O livro didático e o desenvolvimento dos estudantes.
  6. Desenvolvimento de livro didático (domínio e análise de competências, trajetórias de ensino, design de tarefa, formato de apresentação do conteúdo para o estudante, formato de apresentação do conteúdo para o professor – guia do professor).
  7. Políticas sobre livros didáticos (política governamental de educação, distribuição, estratégias de mercado).
  8. Evolução dos livros didáticos frente às novas tecnologias.
  9. Outras disciplinas em livros didáticos de matemática e matemática em livros didáticos de outras disciplinas.

 

Alguns destaques da ICMT2

 

Comunicação oral (8/5): Engineering process in the development of a digital guide of the Brazilian Program of Textbooks (PNLD)

O time do Lematec da UFPE, representado por Franck Bellemain, Verônica Gitirana, Rogério da Silva Ignácio, Rosilângela Lucena e Pedro Alessio, falou sobre o PNLD e o desenvolvimento do guia digital para facilitar a análise e escolha do material por parte dos professores.

 

Sessão plenária (9/5): A multimodal approach for theorising and analysing Mathematics Textbooks

Kay O’Halloran, professora titular na School of Education da Curtin University, em Perth, Western Australia, explicou que a análise multidimensional emergiu nas décadas recentes como uma área interdisciplinar de pesquisa, oriunda da linguística, da semiótica e de outros campos relevantes, com o objetivo de estudar as contribuições e interações de recursos linguísticos e não linguísticos (por exemplo, língua falada e escrita, imagens, gestos, sons, layout de páginas e design de websites) para a comunicação de significados.

Sob essa perspectiva, o conhecimento matemático é construído a partir de linguagem, imagens e simbolismo matemático que se integram de formas específicas em textos matemáticos. Kay O’Halloran apresentou uma visão geral da natureza semiótica de cada recurso e, em seguida, analisou um texto matemático para demonstrar como escolhas linguísticas, visuais e semióticas se combinam na resolução de problemas matemáticos e como as expansões de significado ocorrem durante o processo de aprendizagem. A sessão foi finalizada com uma discussão sobre as dificuldades de ensino e aprendizagem de matemática fazendo-se uma referência aos livros didáticos.

Kay O’Halloran, UFRJ, maio de 2017.

 

Sessão plenária (10/5): An international comparison on selection of contents and difficulty level of examples in high school mathematics textbooks

Jianpan Wang, professor titular de matemática e ex-reitor da East China Normal University, com base no projeto de pesquisa A comparative study on high school mathematics textbooks of certain countries, falou sobre a comparação de livros didáticos de matemática de diferentes países com foco nos seguintes aspectos:

Seleção de conteúdos

Foi apresentada uma análise das características da seleção de conteúdos em livros didáticos de diferentes países, com foco em quatro eixos principais da matemática – Álgebra (incluindo funções); Geometria; Probabilidade e Estatística; Cálculo – indicando as semelhanças e diferenças entre os livros.

Nível de dificuldade dos exemplos matemáticos

Foi apresentada uma comparação do nível de dificuldade de exemplos matemáticos em livros didáticos selecionados em diferentes países, conduzida em cinco dimensões: nível de base; nível cognitivo de matemática; nível de raciocínio; nível operacional; nível de cobertura do conhecimento.

Ao mesmo tempo em que a apresentação foi interessante pela tentativa de se estabelecer critérios para comparar livros didáticos de matemática de diferentes países, ficou claro que comparações qualitativas (e também algumas quantitativas) não fazem sentido se considerarmos a diversidade de contexto educacional (currículo, metodologia, formação de professor etc.) dos diferentes países.

 

Comunicação oral (10/5): Statistics education in textbooks: Brazil’s national textbook program and teachers’ manuals

Gilda Guimarães e Natália Amorim, da UFPE, apresentaram parte de um projeto de pesquisa que visa a encontrar evidências da possível influência do Guia do PNLD sobre os livros didáticos de matemática do Ensino Fundamental 1, especificamente em relação ao ensino de Estatística. As pesquisadoras vêm trabalhando na análise das últimas edições do Guia do PNLD e das coleções aprovadas e, na comunicação, apresentaram tabelas comparativas que indicam mudanças nas coleções, que passaram a trabalhar competências e habilidades ligadas ao eixo Estatística, possivelmente por influência do conteúdo presente no Guia. O trabalho ainda está em desenvolvimento.

 

Workshop para professores (10/5): Metodologias de análise horizontal

Henrique N. Sá Earp, professor da Unicamp, e sua mestranda, Diana T. Amaro, apresentaram metodologias de análise de livros didáticos de matemática baseadas na experiência da disciplina Análise de livros didáticos e material didático de matemática, estruturada e ministrada pelo professor desde 2014 no curso de Licenciatura em matemática da Unicamp. Eles iniciaram o workshop definindo o termo análise horizontal como a comparação entre dois ou mais livros quanto a sua abordagem de um mesmo conteúdo e visando à escolha do melhor, de acordo com a necessidade do professor.

Em grupos, recebemos dois livros e tivemos de identificar os conteúdos pares (estruturação editorial do capítulo, ênfases e estratégias de abordagem, rigor matemático e quantidade/qualidade das atividades), aqueles presentes em ambos os livros, e os conteúdos díspares, que ocorrem em apenas um dos livros. Analisamos e comparamos a quantidade, adequação pedagógica e distribuição no texto dos conteúdos pares e a relevância dos conteúdos ímpares.

 

Sessão plenária (11/5): Eletronic vs. Paper Textbook Presentations of Various Aspects of Mathematics

Zalman Usiskin, professor emérito da University of Chicago e diretor geral do School Mathematics Project, abordou os diferentes formatos de livro didático: em papel; eletrônico (tablets, telefones celulares) e híbrido (movendo-se entre as plataformas). O professor ressaltou que alguns aspectos da matemática parecem mais adequados para livros de papel e outros parecem para certos formatos eletrônicos e, com base no trabalho atual de adaptação dos livros didáticos de papel para os formatos digitais, discutiu vários aspectos da matemática, entre eles: vocabulário e notação, dedução, modelagem, algoritmos e representações.

Zalman Usiskin, UFRJ, maio de 2017.

 

Comunicação oral (11/5): Brazil’s mathematics textbooks: an overview of the government policies

Lucas Mazzi, doutorando da professora Rúbia Amaral, da Unesp, apresentou o histórico do livro didático no Brasil, destacando marcos como a criação do Instituto Nacional do Livro (INL), da Comissão Nacional do Livro Didático (CNLD), da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) etc.

 

Workshop para professores (11/5): Guia digital do PNLD: metarecurso para a escolha do livro didático

A oficina ministrada por Verônica Gitirana, coordenadora pedagógica do PNLD 2018, e por seus companheiros do Lematec partiu do trabalho desenvolvido pela equipe de avaliação do livro didático de Matemática do MEC e buscou discutir a importância do Guia Digital do Livro Didático como metarecurso destinado a orientar professores para a escolha das coleções.

O trabalho foi divido em cinco etapas:

  1. Apresentação do processo de avaliação do livro didático, do guia digital e da escolha pelo guia (metarecurso).
  2. Instrumentalização dos cursistas com o guia digital.
  3. Apresentação da abordagem metadocumental.
  4. Dinâmica em grupos para a construção e apresentação de um mapa de recursos utilizado por um professor/participante.
  5. Avaliação da oficina.

A oficina foi interessante principalmente porque, antes da análise do guia digital e da escolha da coleção, houve um trabalho de reflexão (etapa 4) sobre como é a aula do professor, quais são as suas necessidades e, a partir dessas informações, qual das coleções apresentadas no guia seria mais adequada para aquele professor.

 

Considerações finais

 

Durante a ICMT2, tive a oportunidade de conhecer pesquisas internacionais e pesquisas nacionais desenvolvidas por grupos de educadores ligados à Unesp, Unicamp, UFPE etc. Foi possível estabelecer um panorama sobre os rumos da pesquisa acadêmica na área dos livros didáticos de matemática, fazer network, compartilhar ideias e percepções sobre a educação brasileira e criar um canal de comunicação, principalmente com pesquisadores de diferentes universidades do Brasil.

Infelizmente, havia poucos professores da educação básica participando do evento e nenhum editor como eu. Parecia haver mais estrangeiros que brasileiros, e a maioria dos participantes era formada por acadêmicos que estavam apresentando seus trabalhos; havia poucos ouvintes. Acredito que o alto custo da inscrição do congresso e das hospedagens no Rio de Janeiro, assim como a pouca divulgação, tenham sido determinantes para esse cenário.

Participar da ICMT2 evidenciou a distância entre a academia e os autores e as editoras de livros didáticos. Diversas pesquisas acadêmicas podem contribuir com o trabalho diário da elaboração de material didático, enquanto o know-how que autores e editores têm sobre a elaboração dos materiais e as necessidades das escolas podem balizar as pesquisas acadêmicas para que sejam desenvolvidos trabalhos mais focados na realidade da sala de aula. Parece fundamental, portanto, que se estreite o contato entre pesquisadores acadêmicos, autores, editores, professores e alunos, de modo que a troca de experiências e o compartilhamento de informações nos permita produzir materiais didáticos ainda mais relevantes para melhorar a Educação brasileira.

 

►Para saber mais:

Curioso por natureza e matemático por formação, edita livros didáticos há 15 anos. Toca em uma banda de amigos, tem TOC por suas coleções de Cds e Vinis, admira a fotografia e escreve literatura em breves linhas. Se diverte com um bom filme, uma partida de futebol, meia maratona, alguns copos de cerveja e qualquer assunto que renda uma boa risada.

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